segunda-feira, 26 de março de 2012

74- CINE-COACHING: CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME "PODER ALÉM DA VIDA"


(por Kau Mascarenhas)

Os links do filme “Poder Além da Vida” com nossos estudos e experiências na área do Coaching se evidenciam do início ao fim da película.

O jovem ginasta Dan Millman tem um objetivo muito bem traçado que é conseguir se classificar para os jogo olímpicos, e acredita que seu valor está relacionado com a concretização desse sonho. O aparecimento do misterioso velho sem nome, pode ser visto como uma metáfora do coach que se encaixa na vida do coachee, trazendo as ferramentas e o método mais adequados ao desenvolvimento do seu potencial e aos questionamentos de suas crenças, para que possa se auto-realizar, seja na obtenção daquilo que busca ou na construção de novas metas. Não é à toa que o rapaz o apelida de “Sócrates”, numa referência direta ao icônico filósofo grego criador do processo maiêutico de fazer perguntas, e que pode ser visto como uma das bases ancestrais do coaching.

Perguntas poderosas se mostram em seus diálogos desde o início tais como: “Você é feliz?”, e “Se não conseguisse ser classificado para a olimpíada, o que você faria?”, que têm um intuito absurdamente provocador em relação àquilo que Dan tem como certezas. Por outro lado, o sábio idoso também o presenteia com aforismos que lhe dão agulhadas nas crenças como: “não há propósito maior que servir os outros”, “não quero que você aceite minhas respostas, quero que encontre as suas”, “não há momentos banais, sempre há algo acontecendo”, e “é a jornada que nos faz, não a chegada”.

Longe de ser um caminho simples e tranquilo todo o tempo, o relacionamento que os dois desenvolvem é cheio de tensões que se mostram sobretudo nos instantes de desacordo e rebeldia, como quando Dan pensa em desistir e fazer tudo a partir dos seus automatismos antigos, ou quando se revolta e exige respostas e orientações diretas. Como um bom coach, “Sócrates” se mantém no seu papel e espera que o rapaz administre suas emoções, permitindo inclusive que ele cometa erros e aprenda a partir de suas próprias experiências. Um coach não pode e nem deve assumir a responsabilidade de proteger o coachee dele mesmo, mas abraça a causa de ajuda-lo a enxergar quem ele é, e mostrar que pode construir seu próprio caminho.

O pesadelo recorrente de Dan, em que se vê esfacelando a perna, acaba por se concretizar num acidente de moto. Trata-se do momento mais duro de sua vida e ao mesmo tempo aquele que lhe traz maior riqueza de aprendizado. O sábio idoso continua a seu lado, reforçando em suas lições o quanto é importante reconhecer os adversários dentro de si mesmo como arrogância, vaidade, medo, competitividade, orgulho, desregramento - armadilhas do Ego a impedir o cumprimento de nossa missão de vida. No filme a cena que melhor ilustra essa luta, para mim, é aquela em que Dan discute com seu Eu Mundano no alto da torre em uma de suas visões. Esse seu “outro eu” pode ser visto como a representação das subpersonalidades sabotadoras que impedem o acesso aos recursos oferecidos pelo Eu Sagrado.

Aprendendo a esperar, a agir e a estar no Presente, saboreando cada passo de sua estrada seja ela carregada de dor ou de prazer, tendo em mente a tríade ensinada por “Sócrates” – paradoxo, humor e mudança - Dan finalmente se recupera dos ferimentos provocados pelo acidente e empenha-se em resgatar sua competência através de árduo treinamento, tanto físico como mental e emocional.

Assim, contraria os sombrios prognósticos dos médicos e do técnico de sua equipe, personagem esse que aparece como contraponto, representando muitos aspectos daquilo que um coach não deve ser ou fazer.

No final, Sócrates desaparece de forma intrigante.

O sumiço físico do idoso pode ser entendido como o instante em que o processo de coaching termina, uma vez que o coachee atinge sua meta. Não é papel do coach permanecer lado a lado com seu cliente eternamente, criando dependência. O coaching pressupõe desapego em dupla mão, e o que o coach mais quer é que seu coachee tenha autonomia para reger sua própria vida, e possa seguir seu caminho.

Isso me remete a um poema de Mário Quintana em que ele diz que “os portos foram feitos para os barcos, mas os barcos não foram feitos para os portos”. Sim, nós, no papel de coaches fomos feitos para os coachees; mas os coachees não foram feitos para ficar ancorados em nós. Devem seguir os mares dos seus destinos, mirando os largos horizontes dos seus próprios sonhos.

Na cena final percebemos que, mentalmente, o jovem já possui uma espécie de coach interno, como se seu próprio Eu Sagrado estivesse a dialogar com ele com a voz do idoso. E ouvimos então o valioso diálogo, tão importante quanto sintético:

- Que horas são, Dan?

- Agora.

- Onde você está?

- Aqui.

- O que você é?

- Este momento.



Assista ao filme clicando aqui http://www.youtube.com/watch?v=tQnkFvhSzgk

Kau Mascarenhas é Master Practitioner e Trainer em PNL, consultor, conferencista internacional, e atende individualmente como coach.

www.proserinstituto.com.br

sexta-feira, 23 de março de 2012

72- EXPERIÊNCIA DE CONTEMPLAÇÃO

O UNIVERSO ESCONDIDO NO BANAL: Contemplando um Pedacinho de Chão
(Kau Mascarenhas)

Contemplar o simples, devassar o aparentemente menos interessante, descobrir a beleza onde a beleza se esconde e se faz menos provável.

Essa foi a minha escolha para um exercício de contemplação com duração de duas horas, em meu curso de formação de Coaching. Farei um relatório da experiência em tempo presente pois estou anotando todos os insights que brotam.

Uma aranha pequeníssima constrói sua teia bem ali, perto dos meus pés, entre algumas folhas de grama. Seus fios são invisíveis. Logicamente, apenas para mim. Observo o transitar de suas patas ligeiras e como o soprar do vento a faz tremer de quando em quando.

Ela pára, paciente e repete seus movimentos entre as folhas tão logo o vento cessa. É incansável.

Eu me pergunto se, de alguma forma, um olhar maior estaria a se deitar sobre mim e meu trabalho, assim como faço com a aranha.

Quem sabe sou o inseto de um observador cósmico que, assim como eu, nota o que faço e como eu vivo, sem interferir.

Talvez Deus aprenda conosco, nos observando igualmente e por isso seja infinitamente sábio.

As infinitas ações de seus infinitos filhos, sejam boas ou más, ou neutras, quiçá, podem servir para que se agigante eternamente em seu saber. E assim, quem sabe, Ele aprenda nos dando lições, simplesmente estando presente.

Passou-se uma hora inteira de contemplação e a teia permanece invisível para mim, tal a delicadeza de seus fios. Sou míope para a percepção do que ela quer de verdade, e do que ela faz.

Tenho contato com sua ação mas não sou capaz de captar seus resultados.

É a ela que eles pertencem de fato. A vida é dela.

A paisagem maior quer me seduzir agora. As flores de hibiscus brilham seu vermelho intenso sob o sol, beijadas por amarelas e ágeis borboletas. Um garboso cavalo marrom pasta e relincha a cerca de vinte metros. O galo canta um pouco mais longe. O verde da mata, poderoso, cobre a colina e suga meu olhar. O grande interfere na minha observação sobre o pequeno.

A beleza fácil e óbvia me desvia o olhar que quero lançar sobre o microcosmo eleito pelo meu Eu Sagrado para ser o alvo de minha contemplação. E a ele retorno, humilde, pedindo desculpas à minha pequenina aranha, a mestra que se mantém em plena ação.

Curiosamente noto que ela baila no ar, bem perto da barra da minha calça. Aproveitou meus poucos segundos de distração e já queria me incluir em seu projeto de teia.

Afasto a perna e ela retorna a suas folhas na grama, sem qualquer perturbação.

Formigas trabalham nas imediações e me pergunto se elas serão o almoço de minha amiga de oito patas. Minha mente viaja aos tempos de menino quando atirei pequenos insetos na teia de alguma aranha. Era impressionante ver sua destreza em sentir o prisioneiro a partir da vibração de seus movimentos nos fios. Lançava-se em sua direção e começava agilmente a cobri-lo com teia deixando-o envolto numa espécie de casulo para mais tarde retornar e poder devorá-lo.

Não. Não farei o mesmo agora. Minha postura é contemplativa, e a curiosidade da criança que ainda habita em mim cede espaço à observação neutra do adulto, que agora quer aprender sem interferir.

Mais uma vez me dou conta de que minha mente saiu desse momento, perdeu o foco, e mergulhou no passado. Respiro e retorno ao ponto de meu interesse. Um pedacinho do chão, com mais ou menos trinta centímetros quadrados de grama, que agora são o palco do espetáculo que a vida me convocou a assistir.

Olho para baixo e procuro o cenário.

Que surpresa! Sinto-me abandonado, a aranha sumiu. Traiu-me.

Quem ela pensa que é? Isso não é justo. A teia continua se apresentando quase invisível, e sua dona não mais ali se encontra.

Investigo cada pedacinho das folhas de grama, perscrutando cada centímetro e não a localizo.

Talvez seja o instante de observar a ausência e como ela ensina.

O vento traz um pedacinho de grama seca e ele se prende num dos fios. Movimenta-se agora ao sabor do vento e me oferece um inusitado balé. Ele gira, tremula, rodopia em torno do fio. Na ausência da dona da casa o pedacinho de grama reina, tomando completamente meu olhar. Ele é o astro.

Outro lampejo, novo aprendizado. Tudo muda embora o cenário seja o mesmo.

O vento sopra agora mais forte e me pergunto com sanha de roteirista de cinema: qual será o desfecho dessa história? Haverá um gran finalle após essas duas horas de contemplação cujo encerramento se aproxima? Algo mais interessante acontecerá para gerar um “uau!” na plateia constituída de todas as minhas subpersonalidades? Afinal terão sido 120 minutos de observação cuidadosa, de um olhar resignado, constante e ávido por lições.

Um pedacinho de gramado, que certamente foi desconsiderado e pisado inúmeras vezes por pessoas e animais, agora mereceu ter a atenção absoluta de um ser humano que o vê como fonte de aprendizado e atinge status de tema para uma crônica.

A aranha voltará? Um inseto se prenderá em sua teia? O bailarino pedacinho de grama seca se descolará ou fará circunvoluções ainda mais extraordinárias?

Mais uma vez noto que algo me tira do presente. Dessa vez é o pensamento no futuro, no que vai acontecer, em vez de observar o que está acontecendo. Para que fugir do agora? O final será o que tiver que ser e trará aprendizado igualmente rico.

Respiro fundo e retorno ao presente, o único tempo que de verdade é meu.

Contemplar silenciosamente o ponto que escolhi se mostra, de fato, um exercício mais desafiador do que pensei, e certamente mais transformador do que jamais poderia imaginar.

Aquieto-me e aguardo pacientemente os últimos minutos da experiência. Nunca pensei que dedicaria na minha vida duas horas inteiras a olhar um pedaço de gramado, sentado numa calçada de cimento, quando o espaço da fazenda ao meu redor é tão cheio de possibilidades de exploração dos sentidos.

O despertador me sinaliza o término do tempo.

Penso que estive na companhia de bons mestres. A aranha, o vento, as folhas da grama... aprendi muito, descobri potencial, e nem todas as lições foram captadas de forma consciente.

Uma sensação importante: o contentamento em perceber que posso asserenar a mente e focá-la naquilo que eu quiser, mesmo que momentaneamente não me sinta tão motivado para essa canalização de foco.

Foi bom fazer silêncio e ficar em minha própria companhia, retirando do todo ou da parte, do macro ou do micro, os recursos e o aprendizado que há em toda e qualquer coisa.

Foram duas horas em que simplesmente estive ali, exercitando tão somente o fato de ali estar - e de doar integralmente a minha presença.

Que bom ter me permitido viver isso.


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Kau Mascarenhas é consultor e conferencista, Master Practitioner e Trainer em PNL, Life e Executive Coach, diretor do Instituto PRO-SER com sede em Salvador - Bahia. É autor do livro "Mudando para Melhor". Conheça mais: www.proserinstituto.com.br

quinta-feira, 8 de março de 2012

71- RECONHECENDO O PODER DA MINHA MÃE, HOMENAGEIO TODAS AS MULHERES EM SEU DIA


"- Meu filho, eu tenho preguiça de me aborrecer." Essa era uma frase que minha mãe dizia com frequência. Ela simplesmente não conseguia entender qual o sentido do mau humor crônico de algumas pessoas ou o porquê de se ficar reclamando e brigando constantemente por uma coisa que considerava pequena.

"Marina Sorriso" é um apelido carinhoso que algumas pessoas lhe deram. De forma bem acertada. Enfrentou o câncer de duas das suas irmãs, e do meu pai, sendo companheira inseparável, e bravamente lidando com os desdobramentos da doença, dando-lhes todo o suporte que podia.

Chorou, caiu e se reergueu quando a Sabedoria Maior resolveu levá-los desse mundo.

Sempre generosa, se mostrava presente para aqueles amigos e familiares que precisavam de atenção e ajuda. Cuidava do outro mas não descuidava de si.

Sempre muito bela, irradiava vitalidade por toda parte. Há seis anos vive com as sequelas importantes de um AVC que lhe deixou com o hemisfério cerebral esquerdo quase completamente comprometido.

Seu vocabulário hoje se resume a 15 palavras, mas sua expressividade não verbal fala tudo o que ela precisa comunicar. A mobilidade do lado direito do seu corpo é quase inexistente, mas sua força interior está em plena ação na forma como acorda disposta quase todos os dias e se coloca diante da vida.

Ela é minha professora de felicidade.

Reconhecendo o poder da minha mãe, homenageio todas as mulheres em seu dia, e ouso repassar-lhes seu conselho: tenha preguiça de se aborrecer.

Mantenha-se firme, tudo passa, menos as rugas do ressentimento, da falta de paz e da intranquilidade. Elas ficam impressas no rosto e na alma.

Procure sua harmonia e seu bem estar, portanto.

Você já é abençoada com todas as maravilhas que o Criador pôs no coração humano. Tenha preguiça de se contrariar, dirigindo seu olhar para o que é positivo.

Por isso, não importa o que aconteça, siga com bravura e conserve o seu sorriso. Sobretudo o sorriso de dentro.

Parabéns por hoje, por ontem e por amanhã.

Parabéns por ser quem é.

(Kau Mascarenhas / foto minha, aos 3 anos, com minha mãe)