quinta-feira, 17 de março de 2011

45- AMOR IMENSO NO PEQUENO VAZIO


Amor Imenso no Pequeno Vazio
(texto e fotos de Kau Mascarenhas)

Hoje o vazio me fez pensar no Amor. Amor com letra maiúscula que, de tão grande, se revela mesmo nas coisas minúsculas.
Minha mãe, e também minha professora de felicidade, me deu uma nova lição de vida. Apesar das limitações decorrentes do AVC que só lhe possibilitam um vocabulário de doze palavras ela me ensinou muito. Com apenas uma palavra, um olhar e um movimento de mão, ela me disse coisas sobre o que significa amar alguém. E não poderia ser mais eloquente.
Fui à sua casa e sentamos à mesa da cozinha para almoçar como de costume. Ela então me mostrou o jogo americano sob seu prato e apontou um pequeno orifício na borda. Um buraquinho. Um vazio.
Meu pai, que faleceu há mais de um ano, havia queimado com cigarro aquele retângulo florido de matéria plástica.
Ela apenas apontou o furinho e disse, olhando pra mim, o nome dele: “Carlos”.
Sua cuidadora e a empregada me explicaram que mamãe só quer fazer as refeições com aquela peça do jogo que tem o furinho. Entendi que essa é uma forma de estar com o homem que foi seu companheiro por 45 anos e que dolorosamente o câncer levou.
Ali, em segundos, ela me ensinou que até o vazio pode ser cheio de significado quando se ama.
Aquilo é apenas um buraquinho de queimado para alguém que vê com os olhos materiais. Mas é um símbolo de Amor para alguém que enxerga com o coração. Uma porta aberta para memórias e sensações.
O Amor faz as coisas parecerem diferentes. O pequeno se transforma em grande e o simples se reveste de maravilhas, tornando-se único e especial quando provêm do ser amado.
Engana-se aquele que acha que mamãe tem qualquer amargura no semblante quando olha para o furinho.
Ela diz o nome de papai e se ilumina com um sorriso. Em seus olhos, muita saudade. Mas nenhuma melancolia.
Aquele furo que deveria ser nada virou tudo.
E o que é um buraco? Algo feito justamente de nada, de vazio, cheio de ausência. Construído com uma matéria que ali não mais está.
Curioso. Ele lhe traz meu pai. De dentro pra fora.
Percebi mamãe me dizendo do seu jeito que o Amor deles continua de uma forma espiritual.
Não pode mais enxergar seu amado, nem tocá-lo, e isso representa o vazio.
Mas pode senti-lo, percebê-lo em alma, e isso o faz presente.
Enquanto almoçávamos eu também digeria, reverentemente, a lição de Amor verdadeiro, desapegado e respeitoso que havia recebido. Amor concreto.
Tão concreto como a mesa de fórmica vista através do buraquinho de cigarro no jogo americano.
Os dois estarão conectados através de seu sentimento que será eterno, fortemente evocado por cada uma das pequeninas e maravilhosas coisas do dia-a-dia.
E a cada refeição estarão juntos à mesa graças àquele furinho.

Carlos e Marina Mascarenhas na praia de Villas do Atlântico, Lauro de Freitas - Bahia, 2008.
foto de Kau Mascarenhas

12 comentários:

Daisy Kraychete Jardim disse...

Pois é, amigo, o amor se manifesta de diversas formas e esse buraco tão significativo foi toda uma expressão sincera de alma para alma e que voce atento e com toda a sua sensibilidade tão bem soube compreender e captar. Bjssss

Dani Truculo disse...

Olá Kau, sempre acompanho seus textos, mas este, sem dúvida, tocou minh'alma significativamente! Vazio é o percurso daquele que não se dispõe a amar! beijinhos n'alma

Beth De Leo disse...

Lindíssimo Kau! Um dos textos mais sensíveis que li sobre quando percebemos o sentimento de quem amamos. Sua mãe é luz no seu caminho e a sintonia de vocês é poesia para quem lê o que você escreve. Grande abraço!

Aleyka disse...

Esse vazio revela a saudade ... Esse vazio revela o amor... Contempla o belo as lembranças....E quem sabe se o mundinho encantado das lembranças traz libertação para ela na solidão sendo uma forma singela de eternizar esse amor ...Parabéns !!!! Sensibilidade ....Bj Aleyka
Bouquet de idéias.

Anônimo disse...

Lindo!!!!

Anônimo disse...

A falta de meus pais me faz sentir um pouco sem identidade... parte de mim já está lá...

Francisco Sales disse...

Olá Kau,
Cheguei a este blog por saber que você tem sido referência em PNL. Espero ter a oportunidade de participar de tuas palestras.
Tenho um blog que tem recebido em torno de 120 visitas por dias (educadores de todo país). Quem sabe, você possa nos dar a satisfação de publicar um texto sobre PNL.
Abraços!
Francisco Sales/salescunha.neto@gmail.com / atelierdeducadores.blogspot.com

Helena disse...

Amei, Kau. Este texto é belíssimo. Um grande abraço!

♥♥NaNnA BeZeRrA♥♥ disse...

ah! o amor...nos remete lá pra dentro desse buraco indecifrável q é a nossa alma! Texto, como sempre, lindo!

Dila Machado disse...

Oi,Kau!Mais uma vez me emociono lendo seu texto.Me sinto no direito dessa emoção por conhecer um pouco da história de vida de seus pais e ter a honra de ter Marina na lista de meus amigos,que são poucos,mas verdadeiros!Com toda essa genética,vc só poderia ser essa pessoa linda,esse filho que cuida de sua mãe com tanto carinho,com tanto amor!!!Bjos,no coração.

mari disse...

Olá,entendo perfeitamente tudo que você escreveu sobre seus pais,e mais ainda tudo que sua mãe sente,pois meu esposo também partiu para a espiritualidade,não consigo desfazer de nada que é dele,sinto-o em cada objeto seu,amo muito e descobri que não é preciso ele estar fisicamente presente para eu amar,sei que em espirito ele está ao meu lado e essa história não acabou e um dia irá continuar na espiritualidade,um forte abraço,adorei seu texto pois me identifiquei muito,att.

Anônimo disse...

Kauzito, sim do vazio tudo se brota, nossa natureza primordial se manifesta extraordinariamente através de infinitas possibilidades como esse sentimento de sua mae pelo seu pai.

Não existe limite, tempo e nem local. Ela simplesmente se manifesta incessantemente presente.