sábado, 22 de janeiro de 2011

40- VOCÊ BUSCA PERFEIÇÃO OU EXCELÊNCIA?


(texto de Kau Mascarenhas)


Contam que à beira-mar um jovem perguntou ao seu mestre zen qual o sentido da linha do horizonte. O velhinho respondeu que ela só existe para lembrar que a perfeição é uma ilusão, palidamente imaginável mas verdadeiramente impossível e, assim sendo, estimula em cada ser humano sua capacidade de ser humilde.
O escritor uruguaio Eduardo Galeano alicerça esse pensamento, propondo uma analogia entre o horizonte e a utopia, e fala de uma outra utilidade: "A utopia está lá no horizonte. Eu me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar".


Foto: Kau Mascarenhas / Série Paz-sagens / Barco em Floripa



De fato, a perfeição é uma utopia útil ao nosso processo contínuo de evolução.
É profundamente inspirador saber que sempre haverá algo novo a aprender, uma dimensão maior de felicidade a alcançar, um patamar de crescimento superior a atingir.
A orientação de Jesus “sede perfeitos como o Pai é perfeito” pode ser compreendida como um chamado, um incentivo. Entretanto será profundamente equivocada a atitude daquele que se arvorar a alcançar perfeição absoluta, considerando essas palavras como um comando factível de ser obtido numa única encarnação.
O perfeccionismo de acordo com diversos pensadores, sejam eles pertencentes às escolas psicológicas ou mestres de estradas espirituais, produz mais dores que benefícios.
Listo aqui algumas características do perfeccionista clássico:
- Intolerância com aqueles que não alcançam os padrões previamente definidos como perfeitos;
- Ansiedade crônica e grande stress por conta da auto-crítica excessivamente severa;
- Desânimo, e falta de motivação para arriscar e tomar iniciativa, por conta do medo de não acertar (“prefiro não fazer do que arriscar fazer de forma imperfeita”);
- Estabelecimento de posturas internas auto-punitivas, formas de pensamento torturantes que chegam a se concretizar em doenças no corpo físico.
Quando se trata de aspectos relacionados ao âmbito moral, esse processo se mostra ainda mais sério levando o perfeccionista a sofrer demasiadamente como se não fosse digno de uma vida feliz e de obter sucesso.
Muitas vezes o perfeccionista sofre de um grande complexo de superioridade e atribui aos seus critérios o status de divinos, ou seja, ele se considera capaz de dizer o que é bom ou ruim, certo ou errado, perfeito ou imperfeito. Pode ser que, paradoxalmente, mesmo se mostrando em atitude humilde, carregue em si uma forte vaidade que não lhe permite a possibilidade de errar. Não admite a mais simples idéia de ser admoestado ou criticado e, assim sendo, prefere não fazer algo uma vez que exista algum risco, mesmo remoto, de não atender aos padrões vigentes ou previamente por ele estipulados.
O mais curioso é que alguns perfeccionistas passam um bom tempo sem errar pelo fato de não agir, já que temem a imperfeição. Assim eles não erram, mas nunca aprendem. Normalmente são seres em cujas vidas se notam muitas omissões, e poucas realizações.
Há, entretanto, muitas pessoas empreendedoras que se dizem perfeccionistas.
Ouso afirmar que na verdade não o são.
São meticulosos, atentos à qualidade, enérgicos na busca de sucesso, e muito comprometidos com seus propósitos. Mas não os chamo de perfeccionistas.
Tenho um outro nome para essas pessoas que atingem grande sucesso em diversos âmbitos e que estimulam o crescimento de quem as cerca com seus grandes feitos.
São os “buscadores da excelência”.
Um buscador da excelência sabe que perfeição é algo absolutamente relativo, por isso prefere definir alguns padrões que podem representar sucesso em seus papéis de pai ou mãe, filho, cidadão, profissional, companheiro, cristão e amigo, e segue esses padrões.
Ele está igualmente convicto de que esses padrões podem mudar, já que sobre todos nós age uma lei inexorável que é a Lei da Evolução.
Aquilo que é um bem hoje poderá se constituir num mal amanhã.
Assim sendo, os padrões de excelência são mutáveis. Eles também evoluem.
O perfeccionista quer manter em mente a idéia de uma regra absoluta para as formas de conduzir sua vida.
O buscador da excelência, no entanto, está aberto a mudar de idéia e tem todo o direito de agir de acordo com cada contexto em que esteja inserido.
O perfeccionista pode se utilizar de inúmeras máscaras por conta da imagem rígida que criou para si mesmo.
Não quer ser visto pelos outros de uma forma “menor”, e assim joga em sua sombra uma série de falhas, equívocos e incongruências. Características que ele não aceita em si precisam ser escondidas.
O buscador da excelência, por sua vez, reconhece a sua humanidade e está disposto a aprender com seus erros e, se fica evidente algum deles, procura reorganizar-se, tirar daí a melhor lição, corrigir o que for possível e não repetir a falha. Sem auto-punição, sem crises de consciência, sem dores injustificáveis.
Em meu trabalho costumo sugerir que as pessoas saiam do arrependimento vazio e partam para um trabalho mental que se chama “editar a fita”.
Reveja aquele comportamento que você não considera interessante com olhos amorosos. Perceba que fez aquilo muito mais por ignorância que por maldade. Perdoe-se sinceramente e em seguida edite a fita, ou seja, reconstrua na mente a forma mais interessante de agir. Use o poder mental que se assemelha ao de um possível cineasta que ao mesmo tempo fosse autor-roteirista-diretor-cinegrafista-ator. Reconstrua na mente toda a cena de maneira melhor, tomando as atitudes mais interessantes, e arquive dentro da mente essa nova “ocorrência”. Numa situação futura semelhante àquela seu cérebro terá um arquivo a mais, bastante positivo, para tomar como referência.
Quem pode dizer o que é a perfeição? Aquilo que para mim é perfeito, para você pode nem ao menos ser aceitável.


Foto: Kau Mascarenhas / Série Paz-sagens / Barco em Floripa


E se imaginarmos a diversidade cultural que engloba os seres humanos no que diz respeito ao entendimento do que é moral, bom, valioso e ético nos diversos países, a complexidade dessa questão se torna ainda maior.
Perfeição, portanto, é uma realidade inatingível para nós que somos humanos. A dimensão da perfeição pertence ao divino. Excelência, no entanto, é uma busca feliz de nossa natureza humana.
Existe uma figura lendária chamada “famaliá”. Trata-se de um pequeno demônio que se for preso numa garrafa atende a todos os pedidos do seu dono, tornando realidade qualquer um dos seus desejos.
No entanto, algumas correntes de estudo dessa lenda dizem que o famaliá na verdade detesta a perfeição e, por conta disso, o seu possuidor deve dar um jeito de fazer algum pequeno defeito existir em cada desejo concretizado. Por exemplo, se ele pede uma casa maravilhosa ao seu diabinho, que dê um jeito de criar uma pequena rachadura em alguma vidraça, ou uma sujeirinha no tapete ou, quem sabe, desfie um pedacinho da cortina. Dessa forma o famaliá não será agredido pela perfeição. Caso contrário ele pode se irritar e destruir tudo.
A mitologia grega também aponta o aparecimento de castigos severos àqueles que se dispõem a desafiar os deuses querendo trazer para o mundo uma perfeição que é encontrada apenas entre os habitantes do Olimpo.
Psiquê, por exemplo, sofreu terríveis agruras com os desafios e torturas impostos por Afrodite, somente por ser uma mortal detentora de uma beleza perfeita. Assim, despertou ciúmes e gerou mágoa na deusa.
Algumas pessoas adoram exaltar sua família perfeita, sua casa perfeita, seu cônjuge perfeito, sua saúde perfeita. Exaltam seu estilo de vida, suas posses e a excelsitude de tudo o que possuem e dos que as cercam. É como se vivessem num conto de fadas eterno no qual não pode haver qualquer ponto negativo. Quem sabe estão cegas às pequenas ou grandes imperfeições que se caracterizam como absolutamente normais em se tratando da vida humana.
Se é desagradável ouvir alguém falar demasiadamente que tudo é perfeito em sua existência, imagine o quanto igualmente é cansativo escutar o extremo oposto. Também não é nem um pouco sadio. É muito difícil estar ao lado de alguém que vive acreditando que nada presta em seu mundo. Coitado de quem se aproxime de uma pessoa dessas e faça um inocente cumprimento perguntando “como vai você?”. Terá que suportar uma avalanche de queixumes nos quais o outro exporá todas as suas mazelas.
Portanto, evoco a importância de se perceber que somos todos humanos e que é natural existirem aspectos não muito angelicais em nossa realidade de seres em processo evolutivo, e de que em nossas vidas podem estar situações que merecem receber energia transformadora.
Mesmo imperfeitos e vivendo num mundo imperfeito, que sejamos felizes e capazes de mudar para melhor, percebendo que já possuímos dentro de nós e ao nosso redor tudo de que precisamos para uma vida plena e feliz.
E as coisas só podem ser resolvidas se tivermos a ousadia de encará-las, ao invés de escondê-las sob o tapete.
Parece-me inclusive que quanto mais ficamos ansiosos em parecer perfeitos, mais os erros se sucedem.
E muitas vezes aquilo que parece imperfeito é justamente o que vai mais encher nossa vida de valor pelo inusitado, pelo surpreendente, pelo criativo.
Na arte humana podemos perceber isso, bem como na própria natureza.
Uma obra de Picasso que mostra um rosto deformado propõe corajosamente uma beleza diferente, antes de tudo pela própria atitude do artista rompendo regras e padrões clássicos pré-definidos.
Uma pérola barroca se destaca por não ser lisa nem absolutamente redonda como as suas irmãs.
Sim, o horizonte existe e está lá, a nos inspirar. E sabendo que é inatingível, podemos nos colocar em atitude respeitosa no que tange ao ritmo da nossa jornada evolutiva.
É importante continuarmos sempre aprendendo, mudando e crescendo, ao mesmo tempo em que nos tornamos flexíveis para perceber que a idéia absoluta de perfeição não existe.
O valor que você tem está, antes de tudo, no fato de você ser como você é.

4 comentários:

Fernanda Caprio disse...

Kau, comecei a ler seu livro Mudando para Melhor hoje, e em poucas páginas, já vi que é como aquelas coincidências inexplicáveis, o sentido do livro é o sentido da minha vida no momento.
Abraços,
Fernanda caprio (fernanda_caprio@hotmail.com)

Gina Carvalho disse...

Kau, costumo dizer q, depois de muito quebrar a cara: quanto mais eu aprendo, mais descubro q pouco sei. Parabéns pelo texto maravilhoso. Bjs Muita Luz!
Gina Carvalho

Eulália disse...

Olha,Kau, seus textos são maravilhosos. Não consigo parar de lê-los.Em cada página do blog mais prazer tenho em absorver todas as palavras.
Obrigada por compartilhar essa VINHA DE LUZ.
Jesus em teus passos,sempre.
Paz,luz e harmonia em teus dias!
Abraços fraternos.
Eulália

Anônimo disse...

Kau Mascarenhas, que texto fantástico ! Pude perceber através deste texto que existe algo precisa ser mudado atualmente na percepção das pessoas que é o perfeccionismo e concordo plenamente de que somos seres em evolução apesar de ser perfeccionista kkkk.
Abraço grande e parabéns !